Precisamos ver A Bela e a Fera?

Estamos vivendo uma era de adaptações: livros, quadrinhos, filmes antigos - não tão antigos assim - tudo está indo para a telona do cinema, ou melhor, voltando a ela. A Bela e a Fera é sim a terceira adaptação da Disney para live action de obras anteriormente animadas como Malévola, Cinderela e Mogli - O Menino Lobo, todas as consagradas versões.
Acredito que toda adaptação precisa trazer, de alguma forma, coisas novas para a história. Contar a mesma história além de se tornar redundante, acaba sendo um tiro no pé.
A Bela e a Fera até consegue alcançar algumas dessas expectativas, mas é ao tentar moldar algo novo que eles acabam se perdendo, e nisso fico frustrado com a produção.
O filme tenta se aprofundar na história dos protagonistas mas, com interpretações bem irrisórias e diálogos um tanto moderados fica difícil se juntar na emoção que essas cenas querem alcançar. Parecem também longas e não ter nexo da história central. No meu ponto de vista, ficou faltando alguns tratamentos de roteiro a mais, precisamente para aguçar o diálogo e alinhar esses "+" na história original.
Um dos pontos legais porém mal construídos durante o filme, está no desenvolvimento extra que o roteiro tenta entregar para a personagem, abordando what the hell teria acontecido com a mãe da personagem. A relação entre Bela e seu pai, Maurice (interpretado por Kevin Kline) sempre foi ponto para as ações da personagem na animação, no live action ela ainda é, mas o filme tira um tempo para desenvolver o mistério por trás da morte da mãe de Bela. É triste que seja exatamente nesses momentos em que o filme quer entregar mais que ele se perde.
Muito se fala sobre a Bela e A Fera e a representação feminina. Nesse filme Bela (a minha feminista fav, Emma Watson) é mais ativa e é uma figura mais contestadora - a única mulher que sabe ler a vila onde mora, ela é vista com maus olhos pela figura religiosa. É um ponto pequeno mas que ajuda na criação de uma personagem mais interessante. Além disso a Bela de 2017 tenta ativamente fugir do castelo e, já quando se deixa prender no lugar de seu pai, faz isso com o objetivo de fuga em mente.
Tudo isso não quer dizer que na história tradicional de uma garota que se apaixona por uma "fera" deixou de existir, ela ainda está lá, e o filme sabe disso. Talvez na tentativa de diminuir esse lado da narrativa os roteiristas se esforçam para fundamentar o comportamento de Fera (interpretado por Dan Stevens) e, não se racionalmente, acabam transformando o filme em uma discursão sobre masculinidade tóxica. Não a discussão profunda que você vai ver, mas é interessante ver esse tipo de história dentro de um live action como esse - homens violentos criam homens violentos.
SPOILER ALERT 🚨
Habemus spoiler sobre LeFou
Essa discussão, que se pode argumentar que sempre existiu na forma do Gaston (interpretado por Luke Evans), ganha um pouco mais de força se olharmos para LeFou (Josh Gad), o tal personagem gay do filme. Mas ele é gay? Sim? Talvez? Como em tantos outros filmes que tentam mostrar personagens LGBT, A Bela e A Fera se perde ao apresentar LeFou como alívio cômico, algo que já era incluso na versão original. O mais interessante sobre ele está nas mudanças que foram feitas, talvez ele seja o personagem com mais mudanças de arco e personalidade. Antes apenas um tolo seguidor de Gaston, seu eterno líder, e em 2017 LeFou é apaixonado pelo tal líder, mas não é incapaz de perceber quando passa dos limites, tanto quando chega a falar sobre Gaston como sendo ele mesmo a "Fera" que está a solta. LeFou ganha um arco de redenção que provavelmente também foi uma tentativa do filme não cair no clichê do gay malvado.
De maneira geral, A Bela e a Fera é um filme gostoso de assistir e que vai com certeza falar com a garota pequena dentro de muitas espectadoras. A trilha sonora tem algumas adições legais como a música cantada pela Fera que ajuda a dar uma visão maior sobre como o personagem se sente mal no final do filme. A sensação que fica é que a produção poderia ter aproveitado alguns meses a mais de trabalho em cima do roteiro para criar uma história mais coesa e que realmente encaixasse todas as discussões e mudanças que o filme parece querer agregar à história original.

